segunda-feira, 10 de novembro de 2008

“Em 1983 resolvi tornar-me líder comunitário”



“Em 1983 resolvi tornar-me líder comunitário”

(OBAMA, BARACK; A Origem dos Meus Sonhos. São Paulo: Editora Gente, 2008).


”Não sabia nada sobre o que era de fato trabalhar na área social e não conhecia ninguém que ganhasse a vida fazendo isso. Quando colegas da faculdade me perguntavam o que um líder comunitário fazia, não conseguia responder-lhes ao certo.

Mas tentava falar sobre a necessidade de mudanças. Mudança na Casa Branca, onde o presidente Reagan e seus protegidos conduziam seus atos sujos. Mudança no Congresso complacente e corrupto. Mudança no espírito do país, maníaco e egocêntrico. A mudança não virá do topo, eu dizia. A mudança virá das raízes, das bases mobilizadas.” (pg. 151)

Comentário: No ano de 1983, um negro, recém –formado em direito na Faculdade de Harvard – a mais tradicional dos EUA, ousava dissentir de todo um grupo de recém-profissionais que tinham um bem sucedido futuro pela frente, e como um Dom Quixote em busca de aventuras, tinha-se aquela voz solitária e sonhadora que queria mudar o mundo, e que, pouco se importava com as benesses financeiras de poder que o destino poderia lhe conceder. Seu nome: Barack Hussein Obama.

Poucos dias antes de sua formatura na turma de direito em Harvard Obama havia traçado o seu destino. Enquanto seus colegas se inscreviam nos cursos de pós-graduação e buscavam empregos e atividades recompensadoras, ele já tinha noção do que queria, algo muito maior e arriscado do que a obtenção de ganhos financeiros, em, uma época em que a segregação racial estava em seu nível mais alto nos Estados Unidos.
Como todo começo é difícil, e justamente por isto marca a história e define a trajetória de todo o restante da vida, transcrevo alguns trechos deste início conforme a obra em que Barack Obama retrata de próprio punho sua vida. São trechos valorosos, como referencial para a vida de cada um de nós que vive compromissado com a paz social e com os valores cristãos, vejamos trechos desta brilhante obra:

(...)
“E assim nos meses que restavam até minha formatura, escrevi para todas as organizações de direitos civis em que pude pensar, para toda autoridade negra eleita no país que tivesse um plano de trabalho progressista, para as associações de bairro e para grupos de defesa dos direitos dos moradores. Não tive resposta de ninguém e mesmo assim não desanimei, mas resolvi arrumar um trabalho mais convencional durante um ano, quitar meu crédito estudantil e talvez economizar um pouco (...)” (pg. 153).
(....)

“Às vezes, depois de uma entrevista com investidores japoneses ou comerciantes alemães de títulos de crédito, eu flagrava o meu reflexo nas portas do elevador – via-me de terno e gravata, uma pasta na mão – e, por um segundo, imaginava-me como um líder da indústria, vociferando ordens, fechando negócios, antes de lembrar quem eu disse a mim mesmo que queria ser e me sentisse culpado pela minha falta de determinação.” (pg.154).



(...)
“Então, um dia, quando me sentei ao computador para escrever um artigo sobre taxas de juros de câmbio, algo inesperado aconteceu. Auma ligou-me.”(pg.155).

(...)

“Eu não sei. O certo é que. Alguns meses depois da ligação de Auma, renunciei ao meu cargo da empresa de consultoria e comecei a procurar com determinação um trabalho na área social.” (pg.156).

(...)

“Naquele mesmo instante ele me ofereceu um emprego que envolvia organizar conferências sobre drogas, desemprego, habitação. Facilitar o diálogo, ele chamou assim. Recusei sua oferta generosa, pensando que eu precisava de um trabalho mais próximo das ruas.”

Trabalhei três meses para um grupo de Ralph Nader [1] no Harlem, tentando convencer os estudantes minoritários da Faculdade da Cidade de Nova York sobre a importância da reciclagem. Depois, passei uma semana distribuindo panfletos para um candidato a vereador no Brooklyn – que perdeu e nunca me pagou pelo trabalho.” (pg.157).

(...)

“Em seis meses, eu estava sem dinheiro e desempregado, comendo sopa enlatada. ” (pg.158)


Comentário: Esta poderia ser a história de algum sonhador que nunca teve oportunidade, e que acabou em algum sinal pedindo esmolas, por ter jogado fora as chances que a vida lhe deu.

Tudo leva a crer que seria mais uma vítima da ganância do ser humano, não fosse o fato de que este homem que renunciou a um emprego extremamente lucrativo, e, que se dispôs a trabalhar como liderança comunitária e que chegou por várias vezes a passar fome e necessitar da ajuda de amigos, é hoje o presidente dos Estados Unidos da América.

Muito mais do que um negro que traz em si toda um herança de preconceitos e de demandas sociais, Barack Obama foi, antes de tudo, um trabalhador incansável. Em toda sua trajetória descrita em sua biografia este homem jamais deixou de colocar em primeiro lugar sua noção de justiça e de paz social.

Arrisco dizer que o trabalho é algo que tem suas raízes na essência da vida, e deve ser feito com convicção de estar sintonizado com seus anseios mais nobres. O presidente eleito quando interrogado sobre o uso de drogas respondeu sem rodeios, que já fumou maconha e usou cocaína na juventude, ou seja, mesmo sendo candidato a presidência não se rendeu às hipocrisias e a detalhes sem importância, demonstrando que seu valor está presente sim no seu trabalho e na sua trajetória como líder comunitário, e não em conjecturas discriminatórias, deixando claro ainda que não necessita ser diferente das demais pessoas nem mesmo melhor ou pior, o que logo no início de sua carreira recusou com veemência

Para ele, Barack Obama o que basta é estar trabalhando naquilo que acredita.

Isto ficou claro, com o fato dele ( Barack Obama) ter abandonado seu emprego como um bem-sucedido consultor em direito e ter se dedicado a atividade de líder comunitário, embora, à época, o próprio termo líder comunitário tivesse uma conotação subjetiva e abstrata.

Buscando sua função de líder comunitário, Barack Obama se despediu de sua cômoda vida de negro bem sucedido e se entregou a algo arriscado e sem perspectiva de resultados, e que nem ele mesmo tinha a noção exata do que era !

Por esta e outras que cada vez mais vejo a determinação e a busca pelos ideais de justiça e de paz, como busca primária em nossas vidas, e como essência para a verdadeira felicidade.

Uma singela homenagem a Barack Obama – guerreiro incansável que nos deixa um exemplo a ser seguido e uma história para nos acolher nos momentos de dúvidas e incertezas.


Um abraço

Mensageiro da Paz.



[1] O advogado americano Ralph Nader tornou-se símbolo de defesa da ética nas corporações e dos interesses do consumidor. Formou grupos sem fins lucrativos, como o Public Citizen ( Cidadão Público), cujo objetivo era proteger os consumidores da negligência e da ganância da indústria (N.T)

Nenhum comentário: